Kihon, que utilidade?

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Muitos julgam-no enfadonho e desnecessário e ao fim de 3 meses já sabem a cartilha toda de cor – sempre o mesmo, qual é a ciência? Pois embora se apresente como um treino de base, a sua prática assume importância crescente em proporcionalidade ao desenvolvimento do praticante, acabando ele mesmo por se ir tornando mais complexo. Não será certamente “á toa” que nos estágios técnicos geralmente se confere grande importância ao mesmo. O nosso corpo deve, através de exercícios básicos, capacitar-se de argumentos válidos para desempenhar de um modo correcto qualquer trabalho que lhe seja solicitado. É através dos exercícios de Kihon que se suprimem as mais elementares deficiências de movimentação e postura, enquanto simultaneamente começamos a entender a necessidade de coordenar o corpo, agindo em sintonia com a mente.

Praticar Karaté é experienciar um constante estado de observância interior e o Kihon obedece na íntegra a essa mesma premissa. Traduzido do japonês, a palavra Kihon significa “base”, apresentando-se assim como uma parte essencial do trabalho da maioria das Artes Marciais japoneses, não fugindo o Karaté a esse “regra”. O Kihon é a principal base, o trampolim para se alcançar um bom nível técnico. Para concretizar resultados, e por forma a que o desenvolvimento técnico e a atitude do praticante em relação a esta componente do treino sejam progressivas, há que treinar com o máximo de concentração, força e dedicação. O Kihon, quando executado de forma correcta, é sem dúvida um fundação sólida para toda a aprendizagem futura.

O Kihon transporta e encerra em si caracteristicas essenciais para definir não só a qualidade do trabalho como outras que auxiliam o praticante a assimilar as particularidades do seu estilo, através da aprendizagem e execução sistemática de técnicas básicas, enquanto se movimenta e familiariza com andamentos, defesas e ataques. É um processo de desenvolvimento global, no qual toda a energia do indíviduo se encontra ao serviço da técnica, por mais simples que esta se apresente: mãos, pés, pernas, braços, ancas, cabeça, respiração, centro de gravidade, contracção muscular, velocidade,… todos estes elementos devem estar conjugados e em plena coordenação.

O treino de Kihon dota-nos de uma potência muito forte, reflexo da velocidade com que executamos os golpes. Por si só, a força muscular não permitirá que o sujeito vingue no Karaté. O poder do Kime resulta da concentração de força máxima no momento do impacto, a somar a uma postura própria, associada a uma série de elementos psicológicos e físicos que assentam principalmente no movimento / projecção das ancas. A repetição e o aperfeiçoamento ensinam-nos que a velocidade é mais importante que a massa. A velocidade da massa em movimento aumenta, proporcionalmente, à força desenvolvida no momento do impacto, razão pela qual nos ensinam a bater com velocidade máxima. Daí a importância de visualizar e apontar na direcção dos pontos vitais do adversário. Daí ser relevante diferenciar bem os níveis gedan, shudan e jodan. Mesmo ao executar técnicas “no vazio”, trabalham-se todos os grupos musculares e partes do corpo. Mesmo sem ter um alvo definido onde finalizar a técnica, aprendemos a executar as técnicas com todas as partes do nosso corpo, rejeitando que a onda de choque provocada pelo impacto torne a nós, forçando-a a penetrar e voltar ao adversário.

Kihon é o caminho que nos leva ao aperfeiçoamento de todos os movimentos, seja qual for a sua complexidade ou finalidade. Um karateca que tenha boas bases será por definição um bom executante de Kata, da mesma forma que se encontra capacitado para se revelar um bom praticante de kumite ou terá maior facilidade em trabalhar os bunkais, isto porque possui ingredientes ricos, para se desenvolver em qualquer área. Obviamente que a importância dada ao trabalho de Kihon varia consoante os estilos, as linhas, as escolas, os mestres…

Além de tudo isto e de muito mais, o Kihon é o primeiro degrau da nossa “luta” interior. A real dificuldade para o praticante é o seu orgulho e a ânsia natural de vencer. O seu treino demonstra-nos que o nosso verdadeiro inimigo reside dentro de nós, e não nos outros. Aqueles que escondem nas deficiências do seu carácter e técnica, a sua pouca determinação, vontade e espírito de entrega e sacrificio, acabam por ser derrotados sem se aperceberem o que os atingiu. Fartam-se de pressa, com a mesma velocidade com que se convencem já saber tudo.

Todos sabemos que a meta primordial no ataque do Karaté é vencer o adversário. Vencer rapidamente e com o menor esforço. Logo, este deverá ser certeiro e não mais do que um. É esta a diferença entre os ataques de Karaté – atemi – e o de outras lutas ou desportos de combate, e é essa a razão que nos obriga a treinar tanto um mesmo movimento. Da mesma forma que um futebolista treina pontapés livres, cantos ou grandes penalidades. O Kihon, tal com esta Arte Marcial, não é o principio nem final de nada, é meramente um meio para “melhorar”.

Fonte: EKARATE

2 Comentários

  1. Pratico karate , e parabeniso -o pella belissíma explicação. Oss.

  2. Excelente explanação. No momento encontro-me a poucos dias de participar de um campeonato, onde concorrerei na modalidade Kata. No próximo Domingo, 06/12, passarei pelo exame de faixa, e, conseguindo, tornar-me-ei cinto vermelho. Gostei muito do artigo. Pena que aqui, no Brasil, o Karate não seja tão praticado, já que a “arte da moda” é o Jiu-Jitsu. Continuem com esse ótimo trabalho, espalhando a beleza dessa arte, pricipalmente o estilo Shotokan, do qual sou aluno.
    Oss.


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