Kata

Para muitos, a prática e ensino de katas resume-se a um programa de graduações: válido para avaliar a progressão de cada um, com vista à mudança de cinto, chegando mesmo a haver quem valorize quantidade em detrimento da qualidade. De lamentar porém, tanto quanto o facto de se encarar a sua execução como uma estagnação na evolução, uma perda de tempo. Ou ainda, a memorização dos movimentos como se de um mero esquema de ginástica se tratasse, sem atender à sua essência, à sua objectividade, à sua explicação e origem, aos bunkais e aos pormenores da sua componente prática.

O coração do karaté é o Kata. Movimentos pré-coreografados, mas de sequências técnicas de combates, vivenciadas de forma holística, estudados através da repetição, com o intuito de alcançar maior perfeição técnica, elevando os indices de eficácia. Uma enciclopédia de técnicas e uma herança cultural. Uma forma de meditação e expressão física, capaz de traduzir toda a graciosidade da arte em si, onde factores como o equilibrio não foram esquecidos, através da biomecânica do sujeito (respiração, coordenação motora, visualização, fortalecimento muscular, reflexologia, dinamismo). Uma forma de trabalhar simultaneamente um sistema de movimentos e conceitos, a violência e a não-violência. Karate-Do literalmente significa “o caminho da mão vazia”. O sufixo “do” traduz-se assim por caminho, escolha, via, salientando a disciplina espiritual que confere ao karaté formas de se recriar em muito mais que um mero sistema de defesa pessoal. Um processo que lapida o corpo, espírito e mente.

A prática do kata não é uma coisa “morta”, é um processo activo que envolve intercepções pessoais, culturais, históricas, sociais, onde a realidade é construída a cada instante. É interiorizada. Examinar a sua execução é presenciar o resultado de multiplas experiências e relacionamentos, que implica paradigmas através dos quais a experimentação continuada da prática reflecte a personalidade e intensidade vividas. Um ecossistema pluridimensional onde somos o ponto de partida e chegada.

 

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Treino aeróbico, força, estabilidade, improvisação, coordenação, reacção e acção, enquanto o corpo experimenta as sensação de se adaptar. Mesmo em competição Kata é o “parente pobre“. No entanto, trata-se de uma verdadeira “tecnologia” no que respeita o trabalho corporal, que possibilita ao sujeito desenvolver o conhecimento de si próprio, enquanto se centra em si mesmo, sem quaisquer elos ao exterior. O Kata apresenta-se como uma importantíssima ferramenta de trabalho, que possibilita a transformação e normatização da técnica. Não se trata de repetir infinitamente movimentos desprovidos de sentido mas viver cada um, sentir os músculos, evoluir, ouvir o corpo, ler a mente, treinar a visão, que nos indica com naturalidade se estamos a exercitar de forma correcta. É muito importante a existência desta sintonia, quase que matemática.

O karateca não é aquele que bate mais, ou melhor. É o que busca a construção pessoal do seu caractér e desenvolve a sua moralidade a par com o seu físico. A história revela que a prática do kata pode ser informal mas uma componente essencial do processo pedagógico desta arte marcial, onde se espera que os alunos tenham não só proficiência técnica mas conhecimento das raízes onde se fortalece e constrói o seu desempenho físico.

Não é fácil apontar o momento e a forma como surgiu o kata. Como foi encontrado, desenvolvido, pode ser desconhecido ou um segredo a sete chaves guardado, elaborado ou distorcido por mitos e tradições. A interpretação deve ser real e respeitar os detalhes. Se trabalhado com seriedade, tudo isto se desenvolve, se aperfeiçoa, a par com a velocidade e força. Se o individuo estiver apto para sentir o seu corpo em toda a sua extenção, avaliar e analisar o próprio desempenho, com naturalidade saberá adequar as suas acções. É uma forma de trabalhar a dimensão interior com vista ao seu uso no exterior.
O mais curioso é que apesar de o kata requerer o treino repetitivo, de termos que executar os mesmos movimentos, o mesmo padrão, vezes sem fim, ele deverá ser sempre sentido e executado como se fosse “a primeira vez”. Seja com o intuito de competir ou de praticar. Espontaneidade e automatismo. Velocidade e capacidade de superação. Não se trata de exercitar o kata mas de viver o kata.

Nos animais e humanos a violência é algo quase que inato. O instinto pela sobrevivência a isso nos impele. No entanto o kata, para muitos encarado como uma vertente do karaté puramente desnecessária, embora tenha como principal intuito trabalhar o corpo para um confronto e seja composto por movimentos de defesa e ataque, trabalha num sentido diferente, da pacificação da mente. Uma estranha ambivalência mas que se traduz na evolução do individuo, à medida que este toma noção do seu corpo e das suas capacidades, através da purificação do acto da violência em si. Um processo quase que catártico de valor inimaginável, capaz de operar no sujeito mudança.

Fonte: EKARATE

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